Cerca de dez dias após a proibição das bets pela Medida Provisória nº 1.394/2026, os possíveis impactos da medida seguem sendo analisados em diferentes setores da economia, inclusive na cadeia de abastecimento. Em vigor desde 25 de setembro, a MP proibiu a exploração, oferta, intermediação e publicidade das apostas de quota fixa no país.
Antes mesmo da proibição, pesquisas já indicavam que as apostas on-line comprometiam parte da renda das famílias brasileiras, especialmente em um contexto de elevado endividamento, em detrimento de despesas cotidianas.
Recursos que poderiam ser destinados ao pagamento das contas da casa e à aquisição de alimentos, itens de higiene, limpeza e outros produtos acabavam direcionados às apostas. Pesquisa da Sociedade Brasileira de Varejo e Consumo (SBVC), por exemplo, apontou que 19% dos apostadores haviam deixado de comprar itens de supermercado para apostar e outros 23% reduziram as compras de roupas.
A possibilidade de mudança nessa dinâmica já repercute no mercado, com análises na Revista Distribuição e no Valor Econômico sobre os segmentos e empresas que poderiam ser favorecidos pelo fim das bets. O destaque está no varejo alimentar e, especialmente, no atacarejo. O otimismo, porém, é limitado pelo elevado endividamento das famílias, pelos juros e pela possibilidade de alterações na medida durante sua tramitação no Congresso.
Atacarejo pode sentir os efeitos primeiro
Análise da Eleven Financial aponta que o atacarejo pode ser o primeiro segmento do varejo a perceber os efeitos da redução dos gastos com apostas, devido ao perfil de renda de parcela importante de seus consumidores.
Antes da suspensão das bets, segundo o estudo, o brasileiro que apostava perdia, em média, R$ 122 por mês. Levantamento do DataSenado estimou em 22 milhões o número de brasileiros que haviam realizado apostas no período pesquisado em 2024, sendo que 52% recebiam até dois salários mínimos.
“O atacarejo tem maior exposição a consumidores de baixa renda, para quem os R$ 122 mensais representam uma parcela mais significativa do orçamento. O estudo também aponta que alimentos estão entre os gastos reduzidos por apostadores”, afirma Arthur Bonifácio, analista da Eleven Financial.
A avaliação converge com a de Felipe Cima, analista de renda variável da Manchester Investimentos. Em entrevista ao Valor Econômico, ele lembrou que, à medida que as bets ganharam espaço no país, varejistas de alimentos perceberam primeiro uma piora na qualidade da cesta adquirida pelos consumidores e, posteriormente, uma redução do consumo.
“Assaí e Grupo Mateus talvez sejam as empresas que mais podem se beneficiar no curto prazo se essa renda começar a sobrar um pouquinho no bolso do brasileiro”, afirmou Cima.
A Eleven ressalta, contudo, que a possível recuperação do consumo não significa que os recursos antes destinados às apostas serão automaticamente direcionados à compra de alimentos e outros produtos.
Endividamento pode limitar recuperação do consumo
Segundo dados do Ifepec citados pela Eleven, 81% dos apostadores têm dívidas e, entre eles, 74% possuem pagamentos atrasados. Assim, parte da renda que deixar de ser destinada às plataformas pode ser usada inicialmente para reorganizar o orçamento e quitar compromissos financeiros.
Estudo desenvolvido por pesquisadores do Insper em parceria com a Stone reforça essa relação. Entre pessoas que começaram a apostar a partir de 2025, a proporção de inadimplentes ficou, em média, 20% maior nos 12 meses seguintes. A parcela da fatura do cartão de crédito em atraso aumentou 38,7%, enquanto o limite de crédito disponibilizado caiu cerca de 16% na comparação com pessoas de perfil semelhante que não apostavam.
Dessa forma, embora a proibição possa abrir espaço no orçamento para uma retomada do consumo, os efeitos podem não ser imediatos nem uniformes.
Tema segue acompanhado pela ABAD
Os impactos das apostas on-line sobre o orçamento das famílias e o consumo já vinham sendo acompanhados pela ABAD, especialmente diante do risco de agravamento do endividamento e do comprometimento de recursos destinados a despesas essenciais, com reflexos sobre toda a cadeia de abastecimento.
Apesar de já estar em vigor, a MP nº 1.394/2026 ainda precisa passar pelo Congresso Nacional. O texto está sob análise de uma comissão mista e, posteriormente, deverá ser apreciado pela Câmara dos Deputados e pelo Senado. O calendário oficial prevê deliberação até 23 de novembro de 2026.
Segundo a Eleven, uma eventual reversão da medida ou redução de seu alcance poderia diminuir ou retardar a transferência dos recursos antes destinados às apostas para outras despesas. Exceções, restrições à suspensão ou adiamentos de sua aplicação também poderiam reduzir o impacto esperado sobre o varejo.
O cronograma de encerramento das operações, por sua vez, segue avançando. O prazo para retirada voluntária dos saldos disponíveis terminou às 23h59 de 5 de outubro e, nesta terça-feira, 6 de outubro, sites e aplicativos das plataformas deixaram de operar no país.
Agora começa a restituição dos valores remanescentes. As plataformas devem encaminhar as informações necessárias às instituições financeiras, que devolverão aos respectivos titulares os recursos não retirados voluntariamente. A previsão é que as restituições sejam concluídas até 14 de outubro.
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